ONU defende diálogo com talibãs para evitar "milhões
de mortes"
Secretário-geral diz que é preciso conter colapso econômico
Publicado em 10/09/2021 - 07:00 Por RTP - Lisboa
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU),
António Guterres, pediu que a comunidade internacional mantenha diálogo com os
talibãs, para evitar o colapso econômico no Afeganistão, com milhões de mortes.
"É preciso manter um diálogo com os talibãs, no qual
afirmamos os nossos princípios de forma direta, no sentido de solidariedade com
o povo afegão", disse Guterres nessa quinta-feira (9), em entrevista à agência de notícias
France-Presse.
"Nosso dever é estender a solidariedade a um povo que
sofre enormemente, onde milhões e milhões estão em risco de morrer de
fome".
Guterres considerou que não há garantias por ser uma
situação imprevisível. "Os talibãs devem estar envolvidos, para que o
Afeganistão não seja um centro de terrorismo, para que mulheres e jovens não
percam todos os direitos adquiridos durante o período anterior, para que os
diferentes grupos étnicos se sintam representados".
Nos contatos mantidos até agora, "há pelo menos
receptividade para falar", assegurou o ex-primeiro-ministro português, que
não excluiu a possibilidade de visitar um dia o país se as condições forem
adequadas.
A ONU quer "um governo inclusivo", no qual a
sociedade afegã esteja amplamente representada e "este primeiro governo
provisório", anunciado há alguns dias, "não dá essa impressão".
"É preciso respeito pelos direitos humanos, pelas
mulheres e jovens. É preciso que o terrorismo não tenha base no Afeganistão
para lançar operações em outros países e é preciso que os talibãs cooperem na
luta contra a droga", reiterou.
A ONU quer que o Afeganistão possa "ser governado em
paz e com estabilidade, com respeito pelos direitos humanos", disse
Guterres.
De sua parte, os talibãs "querem ser reconhecidos, querem o fim das sanções, apoio financeiro e isso dá à comunidade internacional alguma influência", acrescentou.
Segundo o secretário, o governo provisório talibã ainda não
foi reconhecido internacionalmente, mas é preciso "evitar uma situação de
colapso econômico que pode ter consequências humanitárias terríveis".
É possível, tomando o exemplo do que aconteceu com o Iêmen,
fornecer a Cabul "instrumentos financeiros", independentemente das
atuais sanções, "para permitir que a economia respire", observou.
Para Guterres, "é do interesse da comunidade
internacional medidas específicas para permitir que a economia afegã respire.
Na terça-feira (7), os talibãs anunciaram um governo
provisório totalmente masculino para o Afeganistão, com veteranos de sua linha
dura, que governou o país entre 1996 e 2001, e da luta de 20 anos contra a
coligação internacional liderada pelos Estados Unidos, que terminou em agosto.
0 Comentários